quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Oitenta e seis



Já fazia um ano que o Rock in Rio havia acontecido e lá estava eu entrando em 1986. Um ano diferente. Um ano em que aconteceram muitas coisas em minha vida.

Logo de cara, eu teria que encarar uma nova escola, o Brasílio Machado. Depois de 8 anos no Maria Ribeiro, eu havia terminado o ginásio e estava pronto para o colegial. Mas eu não estava muito animado com a idéia. A imensa maioria da minha turma da 8ª série, passou o ano de 1985 dividido entre a escola e os cursinhos preparatórios para as famosas escolas técnicas, Federal, GV, Liceu, etc.

Eu não me interessei em prestar nenhum tipo de vestibulinho, portanto, me restavam duas alternativas, continuar no Maria Ribeiro, só que estudar no período noturno (a fama era das piores) ou partir pro Brasílio Machado ou pro Conde, que eram colégios estaduais também, porém com o 2º grau até que bem conceituado na região. Escolhi o Brasílio, mas sem nenhuma convicção do que estava fazendo. Minha vida pessoal estava bastante agitada e os estudos ficaram em segundo plano.

Posso dizer que foi em 1986 que tive meus 15 minutos de fama com as mulheres, no caso, as meninas, pois eu estava com 14 anos na época e esse era meu "target". Sempre fui extremamente tímido desde a infância, por isso, o assunto meninas era um grande segredo para mim. Porém não mais que de repente, eu comecei a atraí-las, mas até hoje não sei bem o motivo. Era a época dos bailinhos de rua, eu como dono do "3 em 1" estava em todos, mesmo tendo vergonha para dançar, eu só me arriscava mesmo, imitando o moonwalking do Michael ou aqueles passos de break, muito famosos na época, além é claro das lentas, que era o objetivo maior daquelas festinhas.

Os bailes começaram a acontecer com maior frequência e minha fama também aumentava. Em todos eles, eu era disputado para dançar a lenta e quem sabe começar um namoro, coisa que eu ainda não havia experimentado, pois até então eles eram apenas platônicos, vários, intensos, mas platônicos.

O auge dessa história aconteceu no mês de abril, quando aconteceria um baile na casa da Leandra, que morava na "rua de cima". Era a festa de 15 anos dela e semanas antes já rolava um clima entre a gente, principalmente quando jogávamos vôlei em frente de casa. Todos nossos amigos imaginavam que seria nesse baile que nós começaríamos a namorar. Mas não foi bem isso que aconteceu. Ela realmente estava interessada, ou pelo menos, demonstrava isso, mas quando vi aquela morena entrando no baile, eu me esqueci completamente de todo o resto.

Cristiane. Esse era o nome dela. Morena, cabelos cacheados, linda. Eu estava apaixonado de verdade e ela sabia que eu estava em suas mãos. Foi meu primeiro beijo. Ficamos juntos pouco mais de um mês. E tudo acabou tão misteriosamente como começou. Mas valeu, como valeu.

Mas chegou o mês de junho, e tudo começou a mudar. Diante da minha total falta de interesse em estudar, desisti oficialmente do colegial. Passava o dia inteiro brincando na rua. Num desses jogos na "rua de baixo" aconteceu um acidente bizarro. A bola caiu num bueiro e como de costume, tiramos a tampa e entramos para retirar a bola. Só que quando fui colocar a tampa no lugar, meu dedo ficou preso e a tampa quase o esmagou. Lembro que meu indicador ficou parecendo que tinha o triplo do tamanho de tão inchado. Resultado: dois pontos no hospital e o espanto de todos os enfermeiros com o motivo do acidente.

Em seguida, meu avô morreu. Era a primeira morte de um parente próximo que eu presenciei e foi tudo muito estranho. O clima em casa mudou completamente a partir desse dia, culminando com a morte de minha avó alguns meses depois.

Hoje, vinte e poucos anos depois, fica a certeza que esse período marcou o término da minha infância e o início de uma nova fase. Aqueles tempos de inocência, de brincadeiras de rua, de felicidade gratuita dariam lugar a um adolescente complicado, mas no fundo, contente por ter vivido um ano tão intenso quanto foi 1986.

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