segunda-feira, 16 de novembro de 2009

20 anos do MURO


Hoje preparando mais um churrasco habitual dos finais de semana, me peguei lembrando que apesar desse hábito gastronômico estar tão difundido hoje em dia em nosso país, até a década de 1980 ele não era tão importante assim, pelo menos é o que minhas lembranças permitem avaliar.

É desnecessário dizer que para minha família de descendentes de italianos, a refeição sempre teve e terá um lugar de destaque em nossas vidas, e nunca será apenas uma obrigação ou qualquer coisa parecida. É acima de tudo um prazer!

Até aquela década, minha família era muito mais unida que hoje. Lembro de inúmeros finais de semana com muita comida, bebida, brincadeiras, jogos, discussões, "panos quentes", rancores e mágoas. Tudo isso acompanhado de belas macarronadas, pizzas e esfihas feitas em casa (não existia delivery e também não tínhamos telefone), feijoadas, charutinhos, pernil e peru nos finais de ano, mas não me recordo de nenhum final de semana com churrasco.

Sinceramente não sei dizer o porquê disso, talvez não fosse hábito, ou o preço da carne era alto, ou até mesmo talvez porque ninguém gostasse mesmo, sei lá! Além disso, eram tempos difíceis para o país, com racionamentos, fiscais do Sarney, inflação de 30% ao mês, etc.

Acho que nunca iremos esquecer o dia em que meu pai virou a esquina trazendo nas mãos como um troféu, um pacote de carne! Já faziam algumas semanas que a carne sumira do mercado e tinha virado objeto de luxo para a população. Em outra oportunidade, minha mãe ficou sabendo que em um açougue num bairro próximo tinha recebido uma carga de carne e logo se dispôs a buscá-la. Na volta apesar do cansaço e da felicidade de ter conseguido comprar o que queria, recebeu como recompensa mais uma "patada" de seus entes queridos que moravam conosco na época.

Apesar de tudo, não quer dizer que não comíamos churrasco naquele tempo. Na rua em que fica o Metrô Saúde, havia um senhor que fazia um churrasquinho de rua sensacional. Me lembro como se fosse agora, aqueles espetinhos com farinha de mandioca crua, enrolados em papel e uma sacola plástica trazidos sempre pelo meu pai.

O final da década de 1980 trouxe muitas mudanças no mundo, como o fim da União Soviética, a queda do Muro de Berlin e principalmente nossa independência familiar. Enfim morávamos só nós quatro, meus pais, eu e minha irmã, e enfim compramos nossa primeira churrasqueira portátil, para assar bifes, linguiças, pedaços de frango e vinho doce de São Roque.

Paradoxalmente, nosso muro começava a ser construído.

Para o bem e para o mal.

Mas como precisávamos de um muro naquele momento...

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